sexta-feira, 11 de setembro de 2026 – 06h37

Massacre do Jaraguá

Histórias do Velho Capita
Imagem: Gemini/Generated/IA

O fato se deu há muitos anos, quando a República do Brasil estava engatinhando. Naquela época o bairro de Jaraguá vivia uma efervescência econômica, exportação de açúcar, algodão, e importação de materiais industrializados. O porto de Jaraguá era um dos mais movimentados do Brasil. Na Praça da Recebedoria, hoje Praça Dois Leões, em torno da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, moravam estivadores, embarcadiços, pescadores, homens que tinham o mar como sustento.

Os vizinhos se conheciam, havia casamento entre eles, era como fosse uma só família. Augusta era uma jovem bonita da redondeza, 16 anos, filha de Seu Augusto, estivador, homem forte e rude. Todos admiravam a beleza de sua alegre filha. Menina sapeca, trepava em árvore, corria na praia, faceira, a todos encantava, mas só um à ela agradava: Gumercindo, jovem espadaúdo, tomou corpo de homem com 19 anos, forte musculatura, corpo forjado carregando sacos de açúcar no cais do porto, tornou-se embarcadiço. Os pais de Augusta permitiram o namoro. Era do gosto das duas famílias. 

Certa tarde de domingo, uma pequena patrulha da Força Policial, comandada pelo Cabo Sobral, fazia ronda na Praça Dois Leões. Quando o Cabo viu a moça de roupa domingueira, encantou-se. Ficou deslumbrado com a beleza de Augusta. Todo domingo, o Cabo admirava a menina de seus sonhos passando para missa na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Certo dia ele se apresentou e falou com o pai da moça. Não se conformou em saber que a bela Augusta estava comprometida com um embarcadiço.  Não admitia uma negativa, era quase proposta de casamento, ele um cabo da Força Policial, autoridade, de tradicional família (sua família deu nome à belíssima praia do Sobral, continuação da Avenida da Paz).

No dia 14 de janeiro havia a festa de Bom Jesus dos Navegantes. As embarcações flutuavam, singravam, na enseada da praia da Avenida, cada qual com sua decoração, muitos fogos, muita alegria. À noite a festa se prolongava na Praça e na Igreja. Colocavam tendas para leilões, bingos, tablados onde se dançava e jogava. Improvisavam bares servindo cachaça e tira-gosto para animar a moçada.

Nas casas eram organizadas festas particulares frequentadas pelos vizinhos e convidados. Gumercindo havia chegado em uma barcaça de Penedo. Os amigos fizeram uma festa na casa de Augusto, pai da jovem mais bonita da cidade.

O Cabo Sobral, ao longe, via a animação na casa de Augusto, ficou com ciúme e despeito quando percebeu pela janela, Gumercindo dançando o coco com a amada Augusta na maior felicidade. O Cabo, bêbado, com mais dois policiais, tentou entrar na casa de Augusto, foram barrados na porta por Simplício, irmão do dono da casa. O Cabo quis alterar, apareceram mais de dez estivadores, ele recuou. Depois de certo tempo, Sobral, o cabo arruaceiro, retornou com mais quatro policiais. Foram rechaçados por braços e pontapés, a briga generalizou-se. Uma peixeirada na barriga deixou um policial morto na rua. 

Sobral levou o soldado morto. Foi à Delegacia Regional, armou mais de 20 homens. Montados a cavalos subiram à Praça Dois Leões atirando e matando quem estava pela frente. Os donos das casas pularam muro, fugiram da sanha dos policiais. Na casa de Augusto, todos dispersaram. Dois músicos ficaram guardando seus instrumentos, foram feridos. Na praça, os ambulantes que nada tinham a ver com a história correram para dentro da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Os soldados do Cabo Sobral entraram, atiraram nos inocentes. 

No dia seguinte, o governador foi ao local da chacina, estava escandalizado, entretanto, mandou juntar os cadáveres, mais de dez, em carroça de bonde, e enterrar no Cemitério de Jaraguá, algumas famílias acompanharam os mortos. 

Nenhuma notícia saiu em jornais, nada foi registrado. Para abafar o caso, a Igreja, a cúria, determinou a interdição do templo católico. A Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo da freguesia de Jaraguá ficou trancada por mais de dez anos. Mas o povo não esqueceu, ainda hoje, por tradição oral, os netos e bisnetos de Gumercindo e Augusta contam a história do massacre de Jaraguá. Quase nada tem escrito sobre o Massacre de Jaraguá.

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