quinta-feira, 10 de setembro de 2026 – 07h27

Ludopatia: professor perde R$ 1,5 mi com apostas e encontra tratamento em CAPS de Maceió

Unidades funcionam de segunda a sexta, das 7h às 21h, com equipes plantonistas aos finais de semana e feriados
Ludopatia é um transtorno mental que se caracteriza pela compulsão incontrolável em jogar e apostar - Foto: Alisson Frazão/ Secom Maceió

Em Maceió, o aumento da procura por atendimento relacionado à dependência de apostas online já alerta as equipes de saúde mental. No CAPS AD III, no bairro do Farol, os casos associados às bets representam cerca de 10% dos atendimentos, segundo estimativa das equipes técnicas.

Entre os pacientes, está o professor universitário Sihélio Silva Cruz, que frequenta o serviço de segunda a sexta-feira. Com pós-doutorado em Agronomia e servidor concursado do Instituto Federal Goiano (IF-Goiano), ele estima ter perdido cerca de R$ 1,5 milhão em patrimônio desde que começou a apostar, em 2020.

“Em outubro do ano passado, tive a última recaída. Apostei R$ 2.800 e ganhei R$ 20. Foi quando eu resolvi parar”, conta. 

Sihélio conheceu as apostas por indicação de um vizinho, que sugeriu que ele começasse com R$ 20. No início, vieram os ganhos. Em um único dia, chegou a faturar R$ 41 mil. O dinheiro ganho passou a ser usado em novas apostas. As perdas deram lugar a empréstimos e a novas tentativas de recuperar os valores perdidos.

“Gastei em novas apostas, não recuperei e comecei a pedir dinheiro emprestado. Apostei novamente para pagar as dívidas, não ganhei o suficiente para liquidar o que precisava e me vi em uma grande bola de neve. Esse é o roteiro de todo apostador, só muda o CPF”, esclarece.

A compulsão também afetou a vida familiar e profissional. Sihélio se divorciou após 25 anos de casamento, perdeu a confiança de pessoas próximas e chegou a pedir dinheiro emprestado a um aluno.

Depois de sucessivas tentativas de abandonar as apostas, Sihélio aceitou a sugestão do irmão e buscou tratamento em Maceió, onde vivem seus pais e outros familiares. Ele pediu licença do trabalho e, desde fevereiro, realiza acompanhamento no CAPS AD III do Farol.

O CAPS oferece atividades como arte, futebol e espaços de convivência. Foi durante o tratamento que Sihélio descobriu o interesse pela pintura e criou vínculos com profissionais e outros pacientes.

A assistente social Suzane Lima, coordenadora do CAPS Farol, afirma que a procura de pessoas com problemas relacionados às apostas aumentou nos últimos dois anos. Segundo ela, é preciso atenção quando o jogo deixa de ser uma atividade de lazer e começa a interferir na vida do apostador.

Suzane relata que alguns pacientes chegam ao serviço em situações graves, envolvendo dívidas elevadas, empréstimos, conflitos familiares, automutilação e ideação suicida.

A psicóloga Liranise Alves, que acompanha Sihélio, explica que a compulsão por apostas é conhecida como ludopatia, caracterizada pelo desejo persistente e incontrolável de jogar. “O que o professor de Agronomia enfrenta se chama ludopatia: desejo incontrolável e compulsivo por jogar”, explica.

A aposta ativa o sistema de recompensa do cérebro e pode produzir efeitos semelhantes aos observados em transtornos relacionados ao uso de substâncias. Por isso, pessoas com problemas relacionados ao jogo podem ser atendidas nos CAPS da modalidade AD , voltados ao cuidado de pessoas com dependência de álcool e outras drogas.

Liranise afirma que todos os CAPS de Maceió estão aptos a acolher esses casos. Ela também ressalta que a compulsão por apostas pode aparecer associada a outros problemas, como alcoolismo, uso de cocaína, depressão, ansiedade, insônia e comportamentos suicidas.

Para a psicóloga, o tratamento não se resume a recomendar que o paciente pare de apostar. “Não se trata simplesmente de dizer para a pessoa ‘pare de apostar’. A gente precisa ajudá-la a compreender o comportamento e construir outras formas de lidar com as emoções, com os problemas e até com a própria rotina”, afirma.

O atendimento pode começar nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Após avaliação da equipe, os casos que necessitam de acompanhamento especializado são encaminhados aos CAPS. A rede inclui o CAPS AD III Farol, onde Sihélio realiza o tratamento, além de outras unidades distribuídas pela capital e do equipamento construído no Santos Dumont.

Para evitar novas recaídas, Sihélio aderiu à Plataforma Centralizada de Autoexclusão do Governo Federal, que permite bloquear o acesso às casas de apostas legalizadas. Ele também abandonou o smartphone e passou a utilizar um aparelho simples, sem acesso à internet.

Hoje, Sihélio participa do grupo de apoio Jogadores Anônimos e mantém o acompanhamento no CAPS. “Eu falo que o apostador costuma jogar: jogar fora dinheiro, casamento, terreno, imóveis, relações, família”, conclui.

No Sistema Único de Saúde (SUS), a ajuda pode ser obtida diretamente nas Unidades Básicas de Saúde, popularmente chamadas de “postinhos de saúde”, ou nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Grupos independentes de apoio, como o Jogadores Anônimos (82) 99620-2998, segue o mesmo método do Alcoólicos Anônimos.

Os CAPS de Maceió funcionam de segunda a sexta, das 7h às 21h, com equipes plantonistas aos finais de semana e feriados.

Seguem os endereços e telefones das unidades na capital alagoana.

CAPS Dr. Rostan Silvestre: Rua José Maia Gomes, s/n, Jatiúca. 3312-5500

CAPS Enfermeira Noraci Pedrosa: R. Antônio Joaquim de Oliveira, 69 – Jacintinho3312-5532

CAPS Dr. Sadi Feitosa de Carvalho: R. Dr. Oswaldo Cruz, s/n – Chã de Bebedouro3312-5521

CAPS AD III Dr. Everaldo Moreira: R. Barão José Miguel, 378 – Farol. 3312-5517

CAPS Infanto-juvenil Dr. Luiz da Rocha Cerqueira: Av. Pres. Getúlio Vargas, s/n – Conj. José Tenório3312-5540

CAPS AD III Novo JardimR. Prof. Benedito Olegário dos Santos – Cidade Universitária

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