quarta-feira, 30 de setembro de 2026 – 18h10

Romance regional alagoano ganha 2ª edição e revisita memórias sertanejas

Islan Lisboa homenageia cultura, folclore e raízes de sua terra natal, Santana do Ipanema
Obra de Islan Lisboa reforça a importância do romance regional na literatura brasileira - Foto: Divulgação

Publicado originalmente em 2015, o romance regional “A Peleja de Zé Francisco contra o Lobisomem de Santana do Ipanema”, do escritor e professor alagoano, Islan Lisboa, chega à segunda edição, depois de a primeira tiragem se esgotar rapidamente. Lisboa escreveu a obra como uma forma de homenagear a cultura, o folclore e as raízes sertanejas de sua terra natal, Santana do Ipanema.

A combinação entre fatos, memória, imaginário e elementos fantásticos aproxima a obra de uma tradição importante da literatura popular nordestina. A nova edição também desperta o interesse de leitores que vivem longe de Alagoas e buscam, na literatura, uma forma de manter o vínculo com as paisagens, histórias e tradições de seu povo e local.

A narrativa acompanha Zé Francisco, um sertanejo em busca de um lobisomem, que teria atacado seu único cavalo – animal que o ajudava a atravessar o sertão e a participar da tradicional pega de boi no mato.

A busca conduz o protagonista por uma trama que combina elementos do imaginário popular, conflitos pessoais e referências à história e à formação social do sertão alagoano. Zé Francisco é apresentado como um homem valente, justo, honesto e vingativo, inserido em relações de mando, marcadas pela presença de um coronel local. 

O romance também percorre lugares reconhecíveis para os leitores alagoanos, como os municípios de Pão de Açúcar, Olho D’Água das Flores e Maceió, além de recuperar aspectos históricos da antiga Ribeira do Panema. 

Para a doutora em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Lígia Ferreira, a narrativa dialoga diretamente com a literatura de cordel e o imaginário popular. Ela destaca a presença de lendas, atos heroicos, amor, política, crenças religiosas e assombração, como também do uso do chamado realismo mágico, na construção da narrativa.

“Observa-se tal complexidade a partir das dicotomias, cujo conceito estético balizador é o realismo mágico, condição sine qua non para o enredamento da Peleja, conjugado ao espaço de valentia do herói da narrativa da Literatura de Cordel que se potencializa pelas brigas, salvamentos, escapadas da morte, destreza com os animais, além dos conflitos relacionais e existenciais do protagonista”.

Segundo Ferreira, Zé Francisco pode ser compreendido como um “herói problemático”, conceito associado ao pensamento do crítico literário húngaro, Georg Lukács. A trajetória do personagem é marcada por conflitos individuais que se relacionam às tensões coletivas do sertão, mas sem que uma dimensão seja simplesmente absorvida por outra.

A pesquisadora também identifica, na obra, diálogos com clássicos da literatura brasileira. O conflito amoroso vivido por Zé Francisco teria proximidade da relação de Riobaldo com Diadorim, em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A narrativa também remeteria ao conflito entre Tereza Batista e o coronel Emiliano Guedes, em Tereza Batista Cansada de Guerra, de Jorge Amado.

Para Lisboa, que atualmente mora em Maceió, a literatura também pode funcionar como uma ponte entre o presente e as referências culturais, deixadas para trás quando alguém se distancia de sua terra natal. Esse papel ajuda a explicar a importância do romance regional. 

Ao transformar costumes, paisagens, personagens, modos de falar, conflitos e histórias locais em matéria literária, o gênero contribui para preservar registros da memória coletiva. Não se trata apenas de guardar informações sobre determinado lugar, mas de manter vivas as formas como uma comunidade reconhece, interpreta, narra e revive a própria história.

No caso da literatura, produzida a partir do sertão alagoano, essa dimensão ganha ainda mais força por reunir elementos históricos e culturais que muitas vezes circulam principalmente pela tradição oral. Ao chegar às páginas de um romance, essas referências passam a alcançar novos leitores e podem ser revisitadas por diferentes gerações.

Islan Lisboa é graduado em Letras, doutor em Linguística pela UFAL e professor de língua portuguesa e literatura na rede pública de ensino. Além de “A Peleja de Zé Francisco contra o Lobisomem de Santana do Ipanema”, é autor de “As Crônicas de Amanda ou O Projeto Canalha” e “Um Metro e Sessenta e Oito”.

Os exemplares podem ser adquiridos diretamente com o autor, por meio de sua página no Instagram, @islanlisboa. Os volumes chegam ao público no valor de R$ 50, com acréscimo de frete, em caso de envio para outros municípios.

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