quinta-feira, 17 de setembro de 2026 – 06h37

A cultura dos jogos reflexivos, de azar e de estratégias na história do Brasil – Parte 4

Um passeio pelo universo lúdico, que faz parte de todo processo evolutivo brasileiro, e suas consequências
Imagem: IA_Gemini/NC

Parte 4 – 

Série capitulada, dividida em cinco partes, publicadas diariamente

Comorbidades ludopáticas

O vício em jogos (ludopatia) é um transtorno mental que ativa o sistema de recompensa do cérebro com a liberação de dopamina. O grau de dependência varia conforme a mecânica dos jogos, sendo extremamente alto em apostas financeiras e jogos competitivos ou contínuos que exploram gatilhos de urgência e recompensas rápidas.

É reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental de comportamento aditivo. Com a popularização massiva das plataformas digitais e das “bets” no Brasil, estudos de saúde pública revelam que determinados grupos sociais e faixas etárias apresentam maior fragilidade e vulnerabilidade biológica, psicológica ou socioeconômica para desenvolver a dependência. 

Jogos atuais de Maior Grau de Vício (Risco Alto)

  • Apostas online e jogos de azar (ex: “Tigrinho”, roletas, cassinos virtuais): Possuem o maior potencial destrutivo. O ciclo de perdas e a ilusão de recuperar o dinheiro geram compulsão severa, endividamento rápido e graves crises emocionais. Esses aplicativos usam recompensas imediatas para prender o usuário.
  • Jogos competitivos online (Multiplayer / Esports): Títulos de tiro em equipe ou arenas (League of Legends, CS:GO) criam dependência pela necessidade de status, ranking e pelo medo de “ficar para trás” em relação aos amigos ou ao grupo social.
  • Jogos de progressão infinita e Gacha (estilo caça-níquel de itens): Jogos de celular que exigem login diário para não perder recompensas ou que vendem caixas surpresa (loot boxes) ativam a mesma ansiedade dos jogos de azar tradicionais.

Jogos atuais de Grau Moderado a Baixo (Risco Menor)

  • Jogos single-player com história fechada: Jogos que têm um fim definido. O jogador consome a narrativa e encerra a atividade naturalmente, sem estímulos artificiais para mantê-lo preso por dezenas de horas diárias.
  • Jogos casuais simples (quebra-cabeças offline): Possuem apelo relaxante e costumam ter baixa retenção compulsiva, pois não dependem de interações sociais ou urgência temporal.

Fatores que Medem a Gravidade

  • Acessibilidade móvel: O celular torna o jogo acessível 24 horas por dia em qualquer lugar. 
  • Reforço intermitente: Ganhar ou vencer de forma imprevisível é o gatilho mais forte para manter o cérebro viciado.
  • Impacto na vida real: O grau passa de hábito a doença quando há abandono do trabalho, dos estudos, dívidas financeiras ou isolamento social

Os sinais de alerta do transtorno do jogo compulsivo (ludopatia) incluem a perda de controle sobre o tempo e dinheiro gastos, a necessidade de apostar valores cada vez maiores, mentir para a família, irritabilidade ao tentar parar e o uso do jogo para fugir de problemas.

Sinais Clínicos e Comportamentais

  • Foco excessivo: Pensar constantemente em estratégias, apostas passadas ou em como conseguir dinheiro para jogar.
  • Tolerância: Precisar apostar quantias maiores de dinheiro para sentir a mesma emoção. 
  • Tentativas frustradas: Falhar nas tentativas de reduzir ou parar o hábito.
  • Abstinência: Sentir irritação, ansiedade ou tristeza quando tenta ficar sem jogar.
  • Prejuízos sociais: Afastar-se de amigos, negligenciar o trabalho ou estudos e arriscar relacionamentos importantes.
  • Tentativa de recuperação: Jogar para tentar recuperar o dinheiro que já perdeu (o chamado “atrás do prejuízo”)

Onde Buscar Ajuda Profissional

  • SUS (Rede Pública): Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito para transtornos de comportamento e dependências. Você pode procurar o posto de saúde (UBS) mais próximo de sua residência para obter um encaminhamento.
  • Serviços Universitários e Ambulatórios Especializados: Programas de referência como o PROAMITI (Ambulatório do Transtorno do Jogo Patológico e dos Impulse Control Disorders do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP) são especializados no tema.
  • Grupos de Apoio Mútuo: Associações como os Jogadores Anônimos (JA) realizam reuniões presenciais e virtuais gratuitas de apoio para manter a sobriedade e trocar experiências de recuperação.
  • Psicoterapia Individual: O acompanhamento com um psicólogo focado em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) ajuda a identificar os gatilhos emocionais e a retomar o controle da rotina.

Os grupos com maior fragilidade no vício do jogo estão divididos nas seguintes categorias principais:

  1. Adolescentes e Jovens Adultos
    Imaturidade cerebral: O córtex pré-frontal — a região do cérebro responsável pelo controle de impulsos, freio inibitório e avaliação de riscos — só termina de se desenvolver por volta dos 25 anos. Isso torna os mais jovens biologicamente propensos a comportamentos de risco.
    Estatísticas alarmantes: Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) apontam que os adolescentes são o grupo mais vulnerável, com 55,2% dos apostadores entre 14 e 17 anos situados na zona de risco de jogo patológico. Pesquisas adicionais mostram que o contato inicial frequentemente começa cedo, por volta dos 11 anos.
    Uso da tecnologia: A familiaridade nativa com smartphones, a gamificação das plataformas e o forte apelo de influenciadores digitais aceleram o engajamento contínuo.
  2. Populações em Situação de Vulnerabilidade Social e Baixa Renda
    Ilusão de ascensão social: Pessoas de baixa renda e trabalhadores com menor poder aquisitivo são fortemente afetados pela promessa de “dinheiro fácil” e rápido. O jogo deixa de ser lazer e passa a ser visto, erroneamente, como uma ferramenta de sobrevivência ou investimento para mudar de vida.
    Impacto financeiro devastador: Este grupo compromete fatias severas da renda familiar e de benefícios socioassistenciais, gerando um ciclo rápido de endividamento extremo, dependência de agiotas e privação de itens básicos.
  3. Pessoas com Transtornos Mentais Prévios (Comorbidades)
    Mecanismo de recompensa fragilizado: Indivíduos que já enfrentam condições como depressão, ansiedade, transtorno bipolar ou TDAH possuem maior risco de desenvolver dependência. Três em cada quatro jogadores que buscam tratamento médico apresentam alguma comorbidade psiquiátrica associada.
    Fuga emocional: O jogo funciona como uma automedicação temporária (escape) para aliviar o estresse, a solidão ou o sofrimento psíquico, liberando picos de dopamina no cérebro que geram uma forte necessidade de repetição.
    Histórico de dependência: Aqueles que já lidam com o abuso de substâncias, como álcool ou drogas, têm propensão genética e comportamental muito maior à ludopatia.
  4. Homens em Idade Produtiva
    Perfil de gênero: Embora o crescimento de apostadoras mulheres venha chamando a atenção de especialistas, estatisticamente os homens (especialmente na faixa dos 18 aos 50 anos) continuam sendo a maioria esmagadora nos diagnósticos de jogo patológico.
    Fatores culturais: O perfil é frequentemente associado a traços de alta competitividade, busca por validação social entre pares e interesse prévio por esportes (o que facilita o ingresso no mercado de apostas esportivas).

O que fazer

Se você ou alguém que você conhece está apresentando sinais de perda de controle com gastos em jogos, isolamento ou ansiedade ligada a apostas, lembre-se de que a ludopatia é uma condição médica e tem tratamento gratuito. O SUS (Sistema Único de Saúde) oferece suporte psicológico e médico por meio dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e de plataformas de teleatendimento.

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