segunda-feira, 14 de setembro de 2026 – 01h08

A cultura dos jogos reflexivos, de azar e de estratégias na história do Brasil – Parte 1

Um passeio pelo universo lúdico, que faz parte de todo processo evolutivo brasileiro, e suas consequências
Imagem: IA_Gemini/NC

Parte 1 – 

Série capitulada, dividida em cinco partes, publicadas diariamente

Os jogos fazem parte da cultura brasileira há séculos, desde os ameríndios, atravessando períodos de proibição e legalização, refletindo as mudanças sociais e econômicas do país. Nos últimos anos, o setor passou por uma transformação significativa, impulsionado pelo avanço tecnológico digital e pelo crescente interesse do público, de forma mais preocupante.

Porém, para compreender a evolução dos jogos no Brasil, é essencial percorrer uma resumida trajetória histórica e analisar as origens, as mudanças culturais e a legislação ao longo do tempo.

Nativos das Américas

Antes da colonização, os povos indígenas do Brasil já praticavam diversos jogos e brincadeiras tradicionais que uniam atividade física, conexão com a natureza, fortalecimento comunitário e espiritualidade. 

Os jogos de azar e apostas faziam parte da cultura de diversas etnias, como mecanismos de redistribuição de recursos, entretenimento e fortalecimento de laços sociais. Apostavam flechas, armas de guerra, adornos preciosos e até animais de estimação.

Até o futebol, nossos nativos já praticavam o xikunahity, um futebol de cabeça. Ao invés do chute, a bola é empurrada com a cabeça. O jogo é disputado por equipes de dez atletas, em um campo de dimensões próximas ao do futebol atual. As partidas de Xikunahity envolviam fortes apostas.

O Jogo da onça é um tradicional jogo de tabuleiro de origem indígena brasileira. No Mato Grosso, é jogado pelos Bororo; no Acre, pelos Manchineri e Kaxinawá; e, em São Paulo, pelos Guarani. Antes da chegada dos colonizadores portugueses, era conhecido como adugo ou Ninmangwá Djagwareté. Ele simula uma estratégia de caça e sobrevivência.

Diferente de culturas euro-asiáticas, com forte tradição de apostas em dados milenares, os registros de jogos de puro azar, nas etnias do Brasil, são raros. A maioria das atividades lúdicas tradicionais envolve o desenvolvimento de habilidades físicas, como o arco e flecha, a corrida com tora, canoagem e até a peteca, com penas de aves e base com folhas de milho.

Estudos recentes, por pesquisadores norte-americanos, revelaram que os indígenas, habitantes do oeste norteamericano, já fabricavam e usavam dados feitos de osso liso (chamados de “dados binários”) há mais de 12 mil anos. 

Esses dados, encontrados nas Américas, são mais antigos do que os exemplares mais velhos registrados no Velho Mundo. O que coloca os nativos americanos como pioneiros nessa prática,  dentro da história da humanidade, e não os europeus.

Brasil Colônia

Os europeus trouxeram jogos de cartas, dados e outras formas de entretenimento, no século XVI. Esses eram proibidos pelas leis da metrópole, como as Ordenações Filipinas, mas proliferavam de forma clandestina, nas vilas e portos coloniais, refletindo as mudanças sociais e econômicas do país.

As cartas, inicialmente eram restritas aos navios e quartéis, o baralho rapidamente se espalhou pelas vilas e fazendas. Jogos de vazas, blefe e pura sorte eram usados tanto pelas classes mais abastadas, em seus salões privativos, quanto pela população comum, em tabernas.

Os dados eram o tipo de aposta mais popular, porque não exigiam estratégias, dependiam estritamente do azar ou da sorte. Os colonizadores apostavam moedas, bens e terrenos em lançamentos de dados dentro de hospedarias e vendas.

Muito popular na África Ocidental (região de Guiné e Mali), o Yoté foi introduzido no Brasil pelas rotas do tráfico negreiro. É um jogo de tabuleiro, ou com as linhas riscadas no chão, para dois jogadores, cujo objetivo é capturar todas as peças do oponente ou bloquear seus movimentos.

Da África também veio a Mancala (chamado de Aiú, no Brasil colonial), com origem no Egito. Um dos jogos mais antigos da humanidade, com mais de sete mil anos. É um jogo de tabuleiro focado na matemática, onde se simula o ato de plantar e colher sementes, sorte e estratégia.

Também o Jogo de Búzios, que embora seja um sistema divinatório religioso (e não um jogo de azar), envolve a leitura da “sorte”, do destino (Odus) e de caminhos da vida através do arremesso de conchas.

Ainda no período colonial, no séc XVIII, as primeiras casas de apostas começaram a surgir, impulsionadas pelo sucesso das corridas de cavalos, que se tornaram um passatempo popular, especialmente entre as classes mais altas.

Ainda trazido pelos portugueses, o jogo de Damas (séc XVI), de origem européia, popularizado na Idade Média a partir de jogos antigos, como o alquerque e o dominó (séc XVIII), originário da China, rapidamente se espalhou. Jogos de forte tradição popular, sendo jogados em praças, bares e lares de todo o país, até os dias de hoje.

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